Uma rápida olhada sobre alguns erros de Mao

mao-nixon-1-300x232Uma rápida olhada sobre alguns erros de Mao

Traduzido para o português por Rivaldo Cardoso Melo

(portugues.llco.org)

Mao Zedong foi o maior revolucionário do último século. Mao liderou um quarto de todas as pessoas do mundo para a destruição das correntes do imperialismo, do feudalismo e do capitalismo. “A China se levantou”, anunciou ele quando comandou a Marcha de Tian’anmen. Um quarto do mundo se lançou à sorte com a Revolução de Mao, para costruir um mundo sem opressão. À partir dessa experiência, o Maoísmo nasceu. Maoísmo foi um salto no nosso entendimento científico sobre como fazer a Revolução. Embora o Maoísmo são seja apenas de Mao, suas escrituras serviram como seu maior ponto de referência. O maior presente de Mao para a humanidade foi sua contribuição para o Maoísmo. Maoísmo foi um ponto-chave no desenvolvimento do Comunismo Luz-Guia, o nível mais alto de Ciência Revolucionária do seu tempo. O Comunismo Luz-Guia lidera a luta global hoje. Nós devemos muito a Mao pelo que somos hoje. Contudo, é importante fazer a distinção entre Mao e Maoísmo, e entre Maoísmo e Comunismo Luz-Guia. Mao não era perfeito. Sem falar em todos os seus grandes acertos, ele também cometeu graves erros. Em parte, o Comunismo Luz-Guia é uma resposta a esses erros.

Primeiromundismo

Visões terceiromundistas podem ser encontradas em choque com visões primeiromundistas ao longo da história do Movimento Comunista. Entretanto o primeiromundismo foi uma visão dominante historicamente.  Mao, infelizmente, herdou o dogma primeiromundista. Mao nunca rompeu com a ideia de que apenas uma uma minoria de elites no Primeiro Mundo é que explora e oprime a grande maioria (quando, na verdade, burgueses e trabalhadores do Primeiro-Mundo exploram o Terceiro). Mao nunca rompeu com a ideia de que a maioria dos povos do Primeiro Mundo, incluindo a maioria dos trabalhadores do Primeiro Mundo, são aliados da Revolução Mundial. Mais ainda, a visão de Mao sobre os Estados Unidos reflete esse erro. Por exemplo, Mao disse:

“O povo chinês apoia firmemente a luta revolucionária do povo americano. Eu estou convicto de que o povo americano que está lutando com valentia terá uma vitória derradeira…” (1)

“Nos Estados Unidos, apenas a minoria reacionária dominante composta de brancos é que está oprimindo o povo Negro. Eles não podem de maneira nenhuma representar os operários, fazendeiros, intelectuais revolucionários e outras pessoas iluminadas que compõem a esmagadora maioria de pessoas brancas. Hoje, são um punhado de imperialistas, liderados pelos Estados Unidos, e seus aliados os reacionários de diferentes países, que estão praticando a opressão, a agressão e intimidação contra a imensa maioria de nações e pessoas pelo mundo. Eles são a minoria, e nós somos a maioria. O máximo que eles são é algo menos que dez por cento das 3 bilhões de pessoas do mundo.” (2)

Em adição, Mao falhou em reconhecer que a luta dos Negros pela libertação nacional poderia ser uma luta contra a ocupação branca. Pior ainda, Mao concebeu a luta nos Estados Unidos como luta que incluia os brancos como um todo:

“A luta dos Negros nos Estados Unidos deve se fundir ao movimento dos trabalhadores americanos, e esse movimento vai, no futuro, acabar com o comando criminoso da classe capitalista monopolizadora dos EUA.” (3)

O primeiromundismo de Mao é uma constante em sua vida. O Partido Comunista Chinês ecoou o primeiromundismo de Mao durante a maior parte de sua existência. No entando, durante o perído de Lin Biao, que se estendeu de 1965 a 1971, a retórica primeiromundista do PCC às vezes, quase sumia. Isso se deu especialmente de 1965 a 1968. De fato, durante esses anos, outra linha surgia nas publicações chinesas paralelas ao primeiromundismo. A linha que surgia era aquela que ignorava ou mesmo refutava lutas primeiromundistas. Essa linha é a linha do artigo de Lin Biao de 1965, “Viva a Vitória da Guerra Popular!” Lin Biao reconheceu a contradição da cidade global contra o campo global, as nações exploradoras contra as nações exploradas etc, como a principal. Durante a Revolução Cultural em 1967, Beijing Reviem (“Revista de Pequim”), por exemplo, publicou um artigo por Robert F. Williams que parafraseou a linha de Lin Biao:

“De acordo com os princípios da Guerra Popular, onde as grandes massas de pessoas exploradas do mundo representam as áreas rurais cercando as cidades (os países industrializados exploradores), os revolucionários afro-americanos representam um poderoso subúrbio dentro da cidade.” (4)

Nós podemos supor que havia uma luta dentro do Partido Comunista Chinês sobre como o que significavam as populações do Primeiro Mundo. Pela publicação do artigo de Robert F. Williams, que não estava sob a disciplina do Partido, a linha minoritária poderia fazer seu caminho dentro da mídia em certa ocasião. Infelizmente, a linha de Lin Biao não venceu sobre o dogma primeiromundista de Mao.

Falha em seguir adiante com a Revolução Cultural: Política doméstica, capitalismo rastejante

Outro erro em torno da guinada à direita de Mao durante o 9º Congresso deAbril de 1969. Durante a década de 1970, Mao debandou para a direita tanto na política doméstica (interna) como na política externa. Quando Mao virou a casaca, acabou entrando em conflito com muitos Maoístas. Quando os movimentos espontâneos das massas acabaram, o Grupo da Revolução Cultural foi purgado (punido) por seu “ultraesquerdismo” entre 1967 e 1968. Wang Li, herói do Incidente de Wuhan, que teorizou primeiro a ideia de “continuar a Revolução sob a ditadura do proletariado”, foi purgado no final de 1967. Guan Feng e Qi Benyu também foram purgados. Isso pôs fim nos movimentos espontâneos das massas e diminuiu as crises de comando do PCC. Em 1970, Chen Boda perdeu poder. Em 1971, Lin Biao perdeu poder e morreu. Chen Boda e Lin Biao foram os responsáveis pela sistemização e elevação do Maoísmo a Novo Estágio do Marxismo. Lin Biao foi acusado de tentativa de Golpe, mas nenhuma evidência acreditável foi sequer apresentada para fundamentar essa sentença. A “evidência” que se apresentou para incriminar Lin Biao era ridícula, e claramente forjada. A história do ‘golpe de Lin Biao’ é a mais desajeitada das narrativas policiais. Interessantemente, a Gangue dos Quatro, o que restou de melhores maoístas em 1976, numa repetição de falsificações em torno de Lin Biao, também foi acusada de planejar um golpe.

Depois da vitória da Revolução Cultural (1966-1969) e do 9º Congresso (1969), o prêmio Maoísta deveria ser um retorno às políticas econômicas Maoístas que foram derrotadas por Liu Shaoqi e Deng Xiaoping durante os anos do Grande Salto. (1958-1962). A razão da Revolução Cultural (1966-1969) foi a de reverter o capitalismo rastejante que começou a se formar em substituição ao modelo Maoísta durante os anos do Grande Salto. Essa derrota durante o Grande Salto levou Mao a inicialmente falar sobre o perigo de uma contrarrevolução capitalista por uma nova classe capitalista.

Contudo, depois de varrer do caminho sua oposição, Mao não retornou ao modelo de desenvolvimento Maoísta depois da Revolução Cultural. Em vez de se apoderar do prêmio, Mao optou pelo retorno a uma posição muito similar à posição de compromisso que os revisionistas impuseram aos maoístas no fim do Grande Salto. O retorno para um modelo forte de desenvolvimento Maoísta defendido por aqueles próximos a Chen Boda e Lin Biao, informalmente conhecido como “Salto Voador”, foi abandonado. Em outras palavras, ocorreu um grande afastamento do Maoísmo durante os anos 70, especialmente depois da remoção de Lin Biao. Às vezes, Mao foi parte dessa guinada à direita.

Na década de 70, como parte da guinada, opiniões foram lentamente se revertendo também e aqueles que foram depostos durante a Revolução Cultural foram restaurados. Por exemplo, em 1972 Mao compareceu ao funeral de Chen Yi e se referiu a ele como um “camarada”. Dessa maneira, Mao assinalou uma mudança de postura sobre esse líder adverso num certo momento e convicto opositor à Revolução Cultural. Ye Jianying, que momentos depois orquestrou a prisão da Gangue dos Quatro em 1976, junto com outros revisionistas e direitistas, foram promovidos com aprovação de Mao para preencher o vazio de poder deixado pelos purgos do Exército Popular de Libertação aos verdadeiros maoístas.

“Em nosso país existem aqueles que nos amaldiçoam, falando que nós somos completamente esquerdistas. Que pessoas são nossa ‘facção esquerdista’? São aqueles que queriam derrubar o Presidente hoje, Chen Yi amanhã e Ye Jianying no próximo dia. Essa autoproclamada ‘facção de esquerda’ está presa agora. Por alguns anos, houve caos no paraíso, lutando em vários lugares por toda a nação, fomentando a Guerra Civil. Os dois lados disparam armas, ao todo um milhão de armas. Essa facção do exército apoiou essa facção, aquela facção do exército apoiou aquela facção, [todos] lutando. O comando estava em crise por causa daquela facção ‘de esquerda’… O chefe por trás dos apoiadores dessa facção ‘esquerdista’ não está mais conosco, ele era Lin Biao.” (5)

O caso mais famoso foi aquele de Deng Xiaoping. Durante a Revolução Cultural, Deng Xiaoping foi caracterizado e deposto como a “segunda pessoa em autoridade a seguir pela via capitalista.” Em 1972, Mao mudou de tom. Mao disse que o problema de Deng Xiaoping, exilado em Jiangxi na ocasião, era uma “contradição no meio do povo.” (6) Deng Xiaoping foi trazido de volta ao poder em 1974 para um alto posto de liderança com a benção de Mao. Deng Xiaoping pôde, depois disso, presidir o completo desmantelamento do socialismo nos anos 80. Sem falar das vezes em que entrava em conflitos com revisionistas, Mao vacilou e falou muito dizendo pouco. Às vezes, Mao até protegia os revisionistas. Mesmo quando Deng Xiaoping foi removido do poder mais de uma vez, Mao protegeu ele. Por exemplo, Mao pessoalmente interviu para separar o caso de Deng Xiaoping de Liu Shaoqi durante a Revolução Cultural. Assim, Mao salvou Deng Xiaoping, permitindo a ele fazer o retrocesso. Mao falhou em levar a Revolução Cultural até suas últimas consequências.

Erros na visão global e política externa

Erros foram feitos na política externa e na visão global também. Mao corretamente rompeu com os social-imperialistas soviéticos, em parte, porque os Soviéticos se transformaram eles mesmos em imperialistas, chegando até a estreitar relações com os imperialistas do Ocidente. Contudo, nos anos 70, o PCC se encontrou também alinhado aos imperialistas do Ocidente. Essa virada à direita foi parte da rejeição de Mao à visão global de Lin Biao sobre a Guerra Popular global. Lin Biao foi associado à linha pela qual a China deveria promover a Guerra Popular Global sob a luz do Maoísmo. A linha de Lin Biao foi conectada à disseminação do Maoísmo internacionalmente. Essa linha coloca a China em situação singular diante de todos os países do mundo, exceto os países revolucionários e populares. A linha de Lin Biao defende a luta contra os imperialistas do Ocidente e os Social-imperialistas ao mesmo tmepo. A correta linha de Lin Biao foi encarada como “ultra-esquerdista” por Mao. Da mesma forma que em 1969 (fim da Revolução Cultural), Mao juntou pessoas como Cheng Yi e Deng Xiaoping para se juntar a uma nova linha. Por fim, a linha nova e anti-Lin Biao pôde recomendar uma discreta união entre China e Estados Unidos conta a União Soviética, que o PCC caracterizou como “idêntica à Hitler”. Isso veio a ser justificado depois do fato pela “Teoria dos Três Mundos” dos anos 70 (não confuda com “Terceiro Mundismo”). Deng Xiaoping foi o principal porta-voz dessa linha e teoria durante os anos 70. A facção de Lin Biao se opôs a essa guinada reacionária na política externa e na visão global. A última parada da nova e reacionária linha foi a completa capitulação para o imperialismo que ocorreu com a presidência de Deng Xiaoping nos anos 80. A China, que foi um farol para os países oprimidos de toda parte, agora está vendida. Essa linha reacionária teve o efeito de desonrar toda a rede internacional de movimentos influenciados por Mao.

O movimento revolucionário enfrenta desafios difíceis nos últimos anos. Não existem mais Estados Socialistas. Neste contexto, cientistas revolucionários devem dar passos mais largos. É nosso dever evitar os erros do passado. Isso requer uma avaliação implacável da história do movimento revolucionário. Nenhuma pedra pode deixar de ser revirada. Hoje, o Comunismo Luz-Guia abre um caminho fazendo menções corretas e honestas onde outros disseminam falsificações para proveito próprio. Nós devemos nos apegar a tudo que foi acertado por movimentos passados, elevar e desenvolver isso. Nós devemos rejeitar tudo o que é errado.

Notas

1.
http://marxistleninist.wordpress.com/2009/12/23/mao-zedong-i-place-my-hopes-on-the-people-of-the-u-s/#more-4326

2. Mao Zedong, “Declaração de Apoio aos Afro-Americanos em sua Luta Justa
contra a Discriminação Racial pelo Imperialismo Americano” (em inglês) (8
de Agosto, 1963)
http://marxistleninist.wordpress.com/2008/12/26/two-articles-by-mao-zedong-on-the-african-american-national-question/

3. Mao Zedong, “Declaração do Camarada Mao Zedong, Presidente do Comitê
Central do Partido Comunista da China, em Apoio à Luta Afro-Americana
contra a Repressão Violenta” (em inglês) (16 de Abril, 1968)
http://marxistleninist.wordpress.com/2008/12/26/two-articles-by-mao-zedong-on-the-african-american-national-question/

4. Beijing Review (August 18,1967)
http://monkeysmashesheaven.wordpress.com/2007/09/06/robert-williams-in-beijing-review-august-1967/

5. Teiwes, Fredrick C. O Fim da Era Maoísta. (em inglês) M. E. Sharpe. Inc.
USA: 2007. p 1 of introduction

6. Prairie Fire. Two Roads Defeated part 2 of 3.
http://monkeysmashesheaven.wordpress.com/2008/09/17/two-roads-not-taken-part-2-of-3-still-under-revision/

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